Os efeitos da maconha (cannabis) sobre o cérebro podem ser divididos em dois: os agudos e os residuais. Os efeitos agudos são aqueles associados com a intoxicação no momento em que se faz o uso da mesma e manifestam-se como alterações do humor, da percepção e perda cognitiva, isto é, dificuldade para pensar. Mesmo tendo-se a sensação de bem estar há uma alteração intensa na capacidade de raciocínio e crítica. Os efeitos residuais podem ser devido ao acúmulo da cannabis no sistema nervoso central e que duram horas ou dias após a intoxicação aguda. Assim, mesmo cessando os efeitos agudos causados pela intoxicação, as alterações cognitivas decorrentes do uso podem se manter por mais de 7 dias. Em abusadores, isto é, pessoas que fazem uso de maconha 7 ou mais vezes na semana, os cannabinóides podem permanecer no corpo por mais de um mês após cessar o uso.
Mês: julho 2015
Avanços no conhecimento das doenças mentais
Nestes últimos anos, a depressão e os transtornos de ansiedade, como o pânico e a fobia social, tem ocupado um bom espaço na mídia em geral. Todos já ouvimos sobre estes assuntos em revista, jornais e até artistas estão assumindo que já sofreram de algum transtorno mental. Isto é muito bom, pois diminui o tabu a respeito destas doenças, facilitando com que as pessoas as identifiquem e procurem ajuda. Mas toda esta mídia em cima destes transtornos está diretamente ligada às modificações que a medicina sofreu nestes últimos anos na área da psiquiatria. A década de 90 foi considerada a década do cérebro. Terminamos a década do cérebro e estamos iniciando a década da biologia molecular. Conhecemos as células e agora buscamos os gens. Nas décadas de 70 e 80 houve um grande avanço no conhecimento de como o cérebro funcionava. Descobriu-se que os neurônios, as células que constituem a base do nosso sistema nervoso central, se comunicavam através de mediadores. Isto é, substâncias químicas que eram liberadas por uma célula e que ao chegarem à outra modificavam o funcionamento desta segunda célula, e o resultado disto era uma modificação do nosso humor, por exemplo. Assim, definiu-se melhor como nosso humor poderia ser modificado: através destes mediadores, os quais muitos de nós já ouvimos falar: serotonina, noradrenalina, dopamina, opióides e muitos outros. A partir destes conhecimentos foi possível desenvolver-se novas medicações que são usadas não só para o alívio dos sintomas como para o tratamento destes transtornos.
Maconha e o cérebro
Um estudo apresentado no encontro anual da Sociedade de Medicina nuclear e de imagem, em 2015, mostrou o impacto do uso de Cannabis (maconha) no cérebro. Neste estudo, viu-se que usuários pesados de cannabis (aqueles que usavam maconha quase diariamente) apresentavam uma diminuição da transmissão dopaminérgica em várias regiões do cérebro . A dopamina é um neurotransmissor responsável por várias atividades cerebrais. Alterações nestas transmissões estão envolvidas na manifestação de vários transtornos mentais. Especificamente, o que se observou com os usuários de Cannabis, é que esta diminuição da transmissão dopaminérgica levava a um prejuízo do aprendizado e da memória.
Lítio
O carbonato de lítio é o mais antigo estabilizador de humor utilizado para o tratamento do Transtorno de Humor Bipolar. Sua ação “calmante” foi descoberta por acaso em 1949. A partir desta observação, o lítio foi testado em pacientes maníacos com melhora acentuada dos seus sintomas. Atualmente o lítio é indicado tanto para a fase maníaca do Transtorno Bipolar como a depressiva, sendo também muito eficaz na fase de manutenção do tratamento. É considerado um dos melhores estabilizadores de humor disponíveis.
Uma vez ingerido, é rapidamente absorvido e sua eliminação do corpo se faz através dos rins. Assim, pessoas com doenças renais e idosas devem ter um maior controle no seu uso.
Devido a algumas características do lítio, antes de iniciar o uso, recomenda-se uma avaliação clínica, especialmente da função da tireoide e renal. A dose terapêutica varia muito de pessoa para pessoa, porém o controle da mesma deve ser realizado através da dosagem no sangue. A coleta do sangue deve ser feita 12 horas após a tomada da última dose. O tempo decorrido entra o uso do lítio e a coleta do sangue é muito importante para a fidedignidade do resultado. Uma dose muito alta pode levar à intoxicação, que se apresenta com náuseas, vômitos, dor abdominal, diarreia, tremor grosseiro, etc. Uma vez que o lítio não está presente em nosso organismo normalmente, o resultado da sua dosagem, quando não se faz uso desta medicação, será muito baixa ou indetectável, o que não deve ser confundido com “falta de lítio no corpo”.
O lítio pode ser utilizado em crianças ou em grávidas após avaliação criteriosa do médico. Como ele é excretado no leite, a amamentação também deve ser bem avaliada.
Depressão, perda cognitiva e acidente vascular cerebral (AVC).
Por muitos anos se reconhece a relação entre transtorno depressivo e perda cognitiva em idosos. O idoso, ao se deprimir, parece estar demenciando. Este comprometimento cognitivo melhora com o tratamento da depressão e por isto é chamada de “pseudodemência”. Os pacientes com depressão importante após um Acidente Vascular Cerebral (isquemia ou derrame cerebral) apresentam um comprometimento cognitivo maior do que aqueles pacientes pós-acidente cerebral vascular sem depressão, mesmo que as lesões destes AVCs forem equivalentes em localização e tamanho. Nestes casos, o tratamento bem sucedido da depressão pode constituir um dos principais métodos de recuperação cognitiva pós-AVC.
Depressão
Mudanças de humor são normais. Às vezes nosso humor se altera durante o dia, ou durante a semana. Se nos acontece algo bom, ficamos felizes; se nos acontece algo ruim, nos deprimimos. Isto é o normal. Variações atenuadas do modo como nos sentimos faz parte da nossa relação com o mundo. Mas nem sempre é assim. Às vezes o humor fica para baixo, não muda mesmo com os bons acontecimentos. Às vezes, a vida continua a mesma, mas não nos sentimos mais felizes. Aquilo que um dia tinha graça deixou de ter; coisas que gostávamos de fazer deixaram de ser prazerosas. Tudo ficou mais difícil, sentimos angústia, não dormimos nem comemos mais direito. Estamos, então, com o que chamamos de depressão. Algumas vezes a depressão é mais mascarada. Há um aumento do sono, do apetite e não chegamos a nos sentir tristes, mas muito irritados. São formas diferentes de como a depressão aparece.
Às vezes os sintomas da depressão são bem característicos e fáceis de serem diagnosticados. Outras vezes, a depressão é mais atípica, diferente, e requer mais cuidado para se ter um diagnóstico. Pode predominar a anedonia, isto é, o desânimo e a falta de vontade para fazer qualquer coisa. Não só o trabalho, mas o lazer também. Não infrequentemente as pessoas pensam: isto vai passar, este meu desânimo é só porque as coisas estão difíceis para todo mundo e postergam a procura de tratamento. Ou sentem vergonha de irem a um psiquiatra. E a doença avança, mudando a vida da pessoa, modificando seus relacionamentos, enfim, trazendo vários prejuízos. Sem falar na possibilidade dos sintomas ficarem tão intensos e o sofrimento ser tão grande que a única alternativa visualizada é a morte. Quanto mais tardio o diagnóstico, mais difícil pode ser o tratamento.
Porque falar sobre a mente e o cérebro
O que você gostaria de saber sobre a mente e o cérebro? Envie sua dúvida ou pergunta para lnresposta@gmail.com, que responderei.
Nossa mente e nosso cérebro sempre foram, e continuam a ser, motivo de grandes enigmas e curiosidades. Muito se descobriu a respeito do funcionamento cerebral nos últimos 20 anos e compreender este funcionamento nos ajudou a compreender melhor nossa mente. Paralelamente, muitas mudanças ocorreram nos tratamentos farmacológicos. O cérebro é responsável por tudo o que acontece em nossa mente. Quando o cérebro adoece, nossa mente adoece. Quando nossa mente sofre, nosso cérebro sofre. Tratar a mente é tratar o cérebro e tratar o cérebro é tratar a mente. Assim, um não pode ser pensado sem o outro.
O que busco aqui é oferecer um pouco de informação sobre ambos: a mente e o cérebro, baseada nas frequentes perguntas que me fazem e na percepção de que muitas pessoas gostariam de entender melhor como isto funciona. Esclarecer em uma linguagem acessível algumas dúvidas sobre doença mental e seu tratamento. Divulgar informações atualizadas na área da psiquiatria de forma simples.
Abaixo de cada título você pode deixar sua opinião sobre o texto e fazer alguma pergunta a respeito do mesmo.
